segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

"Oh, uma vida de sensações em vez de uma vida de pensamentos".

Sabe quando você vê o trailer de um filme e instintivamente você sabe que vai gostar? Foi assim com “Brilho de uma paixão”( Bright Star, 2009) que narra a história de amor entre o poeta romântico inglês John Keats e a sua vizinha, Fanny Brawne. O filme, apesar de australiano, é dirigido pela neo-zelandeza Jane Campion, conhecida por outro filme de época que eu adoro e por coincidência comprei nesse fim de semana: “O piano”, acho que o próximo filme dela que eu vou querer assistir é Fogo Sagrado (Holy Smoke). 
A fotografia é linda, adorei a trilha sonora, e a história em si é muito delicada: Keats era, em 1818, um poeta fracassado e pobre, enquanto a família da costureira e aficionada por moda Fanny também não tinha muito dinheiro, o que impossibilitava o casamento, porém não o surgimento do amor entre os dois - e de certa forma favoreceu a relação visto que eles dividiram uma residência alugada, algo comum na época, mas não entre apaixonados. Interessante também é o contraste entre o introspectivo John, sempre calado e desiludido e a enérgica Fanny, cheia de opiniões, e ousada.
Acho que o filme foi muito feliz ao retratar o relacionamento dos dois com tanto apego e paixão, já que essa paixão está presente nas cartas de Keats para Fanny, que também foram publicadas depois de sua morte. 



Março 1820

Adorável Fanny,

Você teme, algumas vezes, que eu não a ame tanto quanto você deseja? minha querida Garota, eu a amo sempre e sem reserva. Quanto mais eu a conheci mais eu a amei. De toda forma - mesmo meus ciúmes tem sido agonias do Amor, no mais forte acesso que eu jamais tive eu teria morrido por você. Eu a tenho irritado muito, mas por Amor! Que posso fazer? Você esta sempre nova para mim. O último de seus beijos foi sempre o mais doce, o último sorriso o mais brilhante, o último movimento o mais gracioso. Quando você passou na janela de minha casa ontem eu me enchi de tanta admiração como se eu a tivesse visto pela primeira vez.
Você proferiu uma queixa, uma vez, que somente amei sua Beleza. Não tenho mais nada a amar em você que isto? Não vejo um coração naturalmente provido de asas emprisionado comigo? Nenhuma expectativa de doença foi capaz de mover meus pensamentos em você para longe de mim. Isto talvez seja tanto um assunto de tristeza como alegria - mais eu não falarei sobre isso. Mesmo se você não me amasse eu não poderia evitar uma completa devoção a você: imagine quanto mais profundo deve ser meu amor, sabendo que você me ama. Minha mente tem sido a mais descontente e impaciente que alguém jamais colocou num corpo, que é muito pequeno para ela. Eu nunca senti minha mente repousar sobre nada com felicidade completa e sem distração, da maneira que repousa em você.
Quando você esta no quarto meus pensamentos nunca voam para fora da janela: você sempre concentra todos os meus sentidos inteiramente. A ansiedade mostrada acerca de nosso Amor em sua última carta é um imenso prazer para mim; entretanto você não deve sofrer tais especulações que a molestem: nem posso eu acreditar que você tenha o menor ressentimento contra mim. Brown partiu - mas aqui está Mrs. Wylie.
Quando ela se for eu estarei acordado para você.

Lembranças à sua mãe
Seu apaixonado J Keats


A parte triste, tanto do filme quanto da história real, é que John morreu aos 25 anos, de tuberculose, e sem saber o sucesso que sua poesia faria. Trágico, embora tão comum que já virou clichê. Talvez o fato de existir tantos autores, e músicos, e pintores, e dançarinos que só são reconhecidos postumamente tenha algo a ver com a mania do ser humano de só reconhecer a felicidade no passado, depois que ela já acabou... ( *DIVAGANDO* “Ah! Quando eu era criança eu era tão feliz!”... “Oh! Quando eu terminei aquele relacionamento fiz a maior besteira, eu era tão feliz e não sabia”. Particularmente, quando eu era criança não via a hora de crescer, e sempre enxergo as qualidades de uma relacionamento quando ele chega ao fim, por isso tento ser uma adulta melhor e deletar ex-namorados do pensamento.) Apesar da pobreza, Keats e Fanny poderiam ter sido felizes juntos por pelo menos um tempo, se ele não tivesse escolhido morrer na Itália para não decepcionar os amigos que haviam pago a  sua viagem. Pensando bem, mocinho meio idiota, não?!Mas como escrevia bem... Triste mesmo é pensar que nem mesmo um amor que merece tais palavras é eterno: Keats morreu, Fanny se casou com outro - doze anos depois, por certo - e teve três filhos e vendeu suas cartas em um momento de necessidade. É a vida.

" Soneto - John Keats  "
                             ( inglês - 1795-I82l )

Quando fico a pensar poder deixar de ser
antes que a minha pena haja tudo traçado,
antes que em algum livro ainda possa colher
dos grãos que semeei o fruto sazonado;

quando vejo na noite os astros a brilhar
- vasto e obscuro Universo, impenetrável mundo! -
quando penso que nunca hei de poder traçar
sua imagem com arte e em sentido profundo;

quando sinto a fugaz beleza de alguma hora
que não verei jamais - como doce miragem –
turva-se a minha mente, e a alma em silêncio chora

um impulsivo amor. E a sós, me sinto à margem
do imenso mundo, e anseio imergir a alma em nada
até que a glória e o amor me dêem a hora sonhada!

( Poema de JG de Araujo Jorge extraído do livro
"Os Mais Belos Poemas Que O Amor Inspirou"
Vol. IV -  1a edição 1965 )

Um comentário:

Flávia - Compartilhando Idéias... disse...

Querida Mayara!
Muito obrigada pelas suas carinhosas palavras no meu blog agora há pouco.
Com tantos comentários que me fizeram refletir, hoje posso dizer que estou bem melhor.
Obrigada de coração!! E obrigada pela visita também. Seja muito bem vinda!!

Quanto à este filme, fiquei super curiosa, é o estilo que gosto também.

Um beijo!