quarta-feira, 11 de julho de 2012

A Carlos Drummond de Andrade


Eu sempre me identifiquei com Carlos Drummond de Andrade. Mais do que com Cora Coralina, com Bandeira, Quintana, mais até do que Clarice, com quem por um tempo ensaiei uma aproximação. Drummond tem um jeito de descrever o silêncio, de perceber o etérico, de descrever o jeito gauche que é também o meu jeito de ser! A poesia e o ceticismo do poeta sempre ecoaram em mim, a impressão de estar sempre presa entre um futuro que não chega e um passado que não acaba. Embora tenha nascido em Poços, nada me diferenciaria do autêntico mineiro de Itabira, sempre fui “triste, orgulhoso: de ferro”. Embora não tenha tido um bigode atrás do qual me esconder, por de trás de meus óculos observo pessoas e a vida passando, consigo fazer piada sobre a inutilidade do cotidiano e mesmo assim continuo me comovendo e me sobressaltando com a poesia das coisas mais simples, e com sua dor. Muitas vezes escrevo enormes textos imaginários, que nunca passarão ao papel: é como se embora o coração sinta, os dedos não concordem e se recusam a dar vida a tanta angústia. Apesar da dificuldade do ser, tal como o poeta, não consigo me desligar do dia a dia, e é difícil conviver com pessoas pois é difícil descobrir quem elas são e ainda assim aceitá-las. Como não lembrar daquele "causo" do casal de amigos que, reclamando de tudo, continua visitando o outro? Por conveniência? Por solidão? Interessa mesma o motivo ou só a ação? Mas, mesmo assim, como não amar uma humanidade que vai em frente sem saber porque, é capaz de atos altruístas, se indigna diante do errado e por muitas vezes nos surpreende positivamente?

Igual-desigual
Eu desconfiava:
todas as histórias em quadrinho são iguais.
Todos os filmes norte-americanos são iguais.
Todos os filmes de todos os países são iguais.
Todos os best-sellers são iguais.
Todos os campeonatos nacionais e internacionais de futebol são
iguais.
Todos os partidos políticos
são iguais.
Todas as mulheres que andam na moda
são iguais.
Todas as experiências de sexo
são iguais.
Todos os sonetos, gazéis, virelais, sextinas e rondós são iguais
e todos, todos
os poemas em versos livres são enfadonhamente iguais.

Todas as guerras do mundo são iguais.
Todas as fomes são iguais.
Todos os amores, iguais iguais iguais.
Iguais todos os rompimentos.
A morte é igualíssima.
Todas as criações da natureza são iguais.
Todas as ações, cruéis, piedosas ou indiferentes, são iguais.
Contudo, o homem não é igual a nenhum outro homem, bicho ou
coisa.
Não é igual a nada.
Todo ser humano é um estranho
ímpar.

Hoje só queria dividir com vocês alguns dos meus escritos preferidos, e espero que vocês gostem tanto quanto eu.

Consolo na Praia 
Vamos, não chores.
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.
O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.
Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis carro, navio, terra.
Mas tens um cão.
Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humour?
A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.
Tudo somado, devias
precipitar-te, de vez, nas águas.
Estás nu na areia, no vento…
Dorme, meu filho.



3 comentários:

Betty Gaeta disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Betty Gaeta disse...

Oi Mayara,
Seu blog está louco, ou meu comentário entra dobrado, ou deleta os dois!!!
xoxo

Gosto disto!

patty disse...

Adoro Drummond! Acho o Quintana mais doce; sempre gostei mais de Drummond. Preciso de um livro dele para a minha cabeceira. Sugestão? Bjs.